sexta-feira, 13 de maio de 2011

A mulher toda santa e imaculada

Ir. Lina Boff


Na linhagem das matriarcas irrompe a figura de uma mulher dentro do plano divino que foi revelado em Cristo Jesus: Deus reserva um lugar singular a esta mulher, aquela que foi a Mãe de Jesus, o Filho do Pai e o Salvador do mundo. O Apóstolo afirma que Deus nos escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados aos seus olhos (cf. Ef 1,4) pela graça salvadora trazida por seu Filho que doou sua vida por todos. Todos nós portanto, somos chamados a sermos santos e imaculados, com a nossa missão a partir das palavras que o Anjo lhe diz: Alegra-te, cheia de graça. o Senhor está contigo! (Lc 1,28). E com a exclamação de Isabel que a proclama: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! (Lc 1,42),



Maria é a mulher cheia de graça



Em primeiro lugar esta expressão significa para Maria estar pervadida pela benevolência do amor de Deus que adorna sua vida como dom para a humanidade. Em segundo lugar significa estar toda coberta, envolvida, cumulada da graça divina. Pela sua fé e pela sua disponibilidade a Deus Maria foi se tornando progressivamente cheia da graça do Senhor a ponto de abandonar-se conscientemente e com toda a liberdade de seu ser, ao plano salvífico que o Pai tinha em mente realizar. O plano do Pai tem uma finalidade bem determinada: a de reconciliar a humanidade com Ele e tornar nova toda a criação plasmada com tanto carinho por Ele desde toda a eternidade.

Nesse contexto Maria é cheia da graça divina porque se deixou encher de Deus e de seu plano. Como Comunidade de Amor esse Deus que se relaciona com o Filho e o Espírito Santo, e revela-se a nós nas suas distintas atribuições que lhe damos de Criador, de Redentor e de Santificador das nossas vidas. A todos os povos revela-se como Único Deus, no respeito de suas crenças, tradições, religião e culturas.

A Maria Ele se revelou enchendo-a de sua graça porque a preservou do pecado original. Com Maria inaugura-se a Nova Criação pelo Filho de Deus, Jesus Cristo que é o filho de Maria por obra do Espírito Santo.



Maria está com o Senhor

Estar com o Senhor é viver da sua comunhão. Esta comunhão se dá na Comunidade divina onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo formam a verdadeira Comunidade que se relaciona para dentro e para fora, isto é, a comunhão que se cria para dentro consiste numa relação de amor, de solidariedade e de doação total de uma Pessoa para com a outra. Tal relação que se dá para dentro, reflete-se para fora através da missão que cada Pessoa da Comunidade divina realiza junto à humanidade.

Maria participa desta comunhão das divinas Pessoas. Primeiramente como mulher que abre seu corpo à ação de Deus e concebe antes pela fé que pela função biológica do seu ser humano. Maria participa da comunhão trinitária como mãe porque oferece seu filho ao mundo e o doa a toda a humanidade. Como esposa Maria participa da comunhão trinitária porque se abre à liberdade do Pai que lhe pede inserção dela em seu projeto de salvação, dentro do ritmo normal da vida humana por Ele plasmada e organizada com sua lei de amor, sem interromper o curso normal do nascimento humano de seu Filho. A partir desse movimento de comunhão trinitária Maria vive sua condição de mulher como todas, como criatura, pois depende de Deus em tudo. Maria vive sua condição de mãe como a mulher que acolheu em si mesma o Verbo de Deus Pai e O doa ao mundo para a salvação de todos. Maria vive sua condição de esposa como mulher que compartilha, assume e vive um projeto, em princípio, comum ao seu esposo José; vive-o na confiança e na certeza de que a abertura ao NOVO que desponta n´ela, tem um conteúdo que deve ser penetrado e vivido na fé que confessa em mistério. Por estar com o Senhor, Maria alegra-se.



Maria é bendita



Isabel é a mulher que reconhece ser Maria a bendita do Senhor porque traz em seu seio o fruto bendito de Deus. Felicita-a pelo dom que ela recebeu de Deus, pelo estado de bem-aventurança em que se encontra por ter aderido ao plano do Pai. Com que belas palavras Isabel fala bem de Maria, com que voz expressiva e firme a proclama aquela que é bem falada, bem dita, bem comentada por trazer a alegria de um futuro próximo que há milênios o povo de Israel aguarda, anseia, espera. Isabel bendiz Maria com estas palavras e com esta proclamação:



Bendita és tu entre as mulheres,

Bendito é o fruto de teu ventre!

Bendita a Mãe do meu Senhor que me visita!

Bendita a saudação que chegou aos meus ouvidos,

Bendita a criança que estremeceu em meu ventre!

Feliz és tu que acreditaste no que o Senhor te disse,

porque será cumprido! (cf. Lc 1, 41-45).





Maria traz o fruto bendito



Em todo o Novo Testamento somente Lucas usa a palavra fruto (karpós) no sentido de fruto do ventre, fruto como filho, descendência. Quando ouviu a saudação de Maria, com um grande grito Isabel exclamou quando ouviu a saudação de Maria: (...) bendito é o fruto de teu ventre! (Lc 1,42).O que Isabel fala Lucas parece confirmar no primeiro discurso de Pedro depois da ressurreição, dirigindo-se a todos os israelitas que o escutavam e que os trata, primeiro como “homens da Judéia”, depois como “homens de Israel” e finalmente como “irmãos”.

Pedro fala a respeito do patriarca Daví que como profeta havia assegurado com juramento, que um descendente seu tomaria assento em seu trono, (At 2,30), referindo-se a Jesus que ressuscitara dos mortos. Maria traz esse Fruto bendito.



Maria e as mulheres de hoje



Maria propõe às mulheres de hoje uma mudança profunda que transforme o presente, como se deu a transformação de Maria de Nazaré diante da proposta divina. Esta é a promessa de um futuro que traz consigo a urgência de se criar um tempo presente que seja novo na sua natureza, isto é, tempo no qual o próprio Deus é proclamado Bendito!

Com as palavras do Magníficat Maria articula o dom divino e comunica-o ao mundo bendizendo a Deus, Fonte de vida e de todo bem. Agradece e bendiz ao seu Senhor proclamando:



Bendito o Senhor que minha alma engrandece,

Bendito o Salvador no qual meu espírito exulta!

Bendita a força libertadora de seu braço,

Bendita a dispersão dos orgulhosos, dos poderosos!

Bendita a exaltação dos humildes, dos famintos!

Bendito o socorro de Deus a Israel,

Bendita sua memória em favor de sua descendência!

Felizes as gerações que me reconhecerão

bem-aventurada! (cf. Lc 1, 46-55).



As “Marias” de hoje bendizem o Senhor porque vivem sua fé como chamado no meio do povo e com ele presidem o serviço que faz da vida toda um projeto de construção do Reino, através de sua prática anunciadora e de sua gratuidade que cria sempre novos espaços de evangelização.

As “Marias” de hoje exultam no Salvador do povo porque advogam a causa dos pequenos e excluídos; tutelam suas tradições que mantêm vivas a fé e a inspiração em Maria como companheira de estrada.

As “Marias” de hoje encontram Maria na juventude que clama por novos projetos de vida e por cidadania; ela se encontra presente nos movimentos sociais que buscam terra, moradia e direito de viver com dignidade sua vida.

As “Marias” de hoje ensinam que Maria não está só nos altares, nos andores e nas procissões, mas mostram que ela é uma figura que, levada para junto do dia-a-dia de seu povo, dá forças para abraçar a causa da vida.

Por tudo isso Maria liberta e ao mesmo tempo socorre. Maria é uma das expressões mais fortes da simbólica popular e a Mulher que mais incide no sentimento da subjetividade humana e no seu modo de ser mãe e rainha, não como todas as rainhas de hoje e de todos os tempos, as quais pouco conhecemos, mas pelo seu jeito de exercer a realeza do serviço que presta ao pobre e ao pequenino.


Este texto utilizamos em um momento de deserto neste mês mariano!
Esperamos que gostem!

Abraços!

Ir. Clara,fe. 

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